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Hoje estava com a minha amiga Andrea na ala de refeitórios do aeroporto de Congonhas, aguardando seu vôo para retornar a Curitiba. Tínhamos acabado de comer alguns Temakis e estávamos batendo um papo sobre alguma trivialidade qualquer, talvez sobre o novo carro da Kia – o qual eu já esqueci o nome, ou talvez sobre o clima de Florianópolis. Sei lá, algum daqueles assuntos de amigos para distrair a mente.

Eu fitava o horizonte de cadeirinhas do refeitório, algumas com humanos sentados, e tentava observar algo fora do comum (aprendam, eu sempre abstraio o comum e por isso eu facilmente não enxergo um amigo acenando bem na minha frente. Porém se passar um jumento verde carregando um pé de romãs lá atrás da cena, eu certamente notarei), algo diferente daquela gente toda vagando de um lado para o outro apenas esperando o tempo passar. Foi então, nesse momento que comecei a notar que entre a calçada da rua e o saguão onde estávamos havia um área cercada por paredes de acrílico possivelmente para quem quer fumar enquanto toma um café, bem parecido com os “chiqueirinhos” que agora temos nas baladas paulistas.

Neste local, bem de frente a um dos vãos que existem entre o fim de uma das paredes de acrílico e a pilastra de sustentação do segundo andar, havia um garoto moreno, estilo moleque de uns 12 ou 13 anos, com cara de quem estava aprontado algo, um semblante de culpa misturado a uma apreensão de ser flagrado a qualquer instante. Aquilo chamou a minha atenção Passei um tempo observando e comecei a me indagar do porque aquele garoto não se movia. Ele estava lá, estático a pelo menos 30 segundos, nem ao menos piscava.

Da distancia que eu estava, inicialmente achei que se tratava de algum garoto que estava com a família esperando o vôo. Estava com uma camiseta comum, de criança, e era tudo que eu podia ver dali. Já faziam quase 2 minutos que o garoto estava ali parado, porém agora olhava para todos os lados como que desesperado procurando algo, quando então se moveu revelou outro menino – provavelmente mesma idade – que estava do outro lado da parede de acrílico segurando dois caixotes de engraxate. Foi então que o primeiro garotou subiu em algum degrau próximo das paredes e recebeu os dois caixotes por cima dela. Em poucos segundos o segundo garoto passou pelo vão , onde provavelmente não passa nem meu joelho – e deve ser exatamente isso que os construtores dessa área devem ter pensado – e pronto, os dois estavam no aeroporto. VITÓRIA!!

Nessa parte eu já estava torcendo pelos dois, seja lá qual fosse a intenção deles ali. Ambos se moviam furtivamente, parece que cada passo era calculado para que nenhum dos gigantes-seguranças-engomadinhos os visse. Cada um atacou uma mesa de turistas e logo depois vieram para o saguão onde eu e a Andrea estávamos. Ao passarem a porta notei que cada um tinha, além do caixote, um saquinho de batata-frita, possivelmente dado a eles pelos turistas que comiam no “chiqueirinho”. Vieram ambos para frente do stand do Gendai, onde a Andrea havia comprado os temakis, posicionaram suas caixas de engraxate devidamente viradas para baixo, e meio que em sincronia subiram-nas e ficaram a observar os sushi-man trabalhar.

Eu não sei bem qual era a real intenção dos dois ali, só sei que todo aquele medo de ser apanhado em flagrante foi trocado pela admiração dos dois ao preparo da comida japonesa. Obviamente em poucos minutos o segurança chegou e os acompanhou para fora em meio algum sermão. Ficou lá fora conversando com os dois mas com uma feição mais branda, como se já os conhecesse e disse: “Porra Marcinho, justo hoje que o chefe tá aqui vocês inventam de aprontar pra mim?!”. Após o sermão o segurança foi embora e eles, que a essa altura já tinham devorado as batatas, entraram novamente – mas dessa vez por outro vão, com muito mais prática e agilidade. Novamente no saguão, fizeram a mesma cena, conseguiram mais batata frita e, quando viram, correram prontamente para um comandante que tomava um café ali ao lado, pareciam ter visto fortuna.

A história é só isso, vi que foram levados para fora mais uma vez mas a hora do embarque da An chegou e tivemos que ir até o piso superior. Achei fantástica a curiosidade dos garotos pelo preparo do sushi e aprendi que comandantes de avião devem dar esmolas mais gorduchas. Espero realmente que os dois se interessem pela cozinha e tenham a oportunidade de trablhar em uma. Enquanto isso ainda devem estar por lá, brincando de fazer o gigante-segurança-engomadinho de bobo.

9 Comments

  1. dotzero
    9:54 pm on January 30th, 2011

    pows.. curti o texto, Zé. tem horas que penso como seria bom voltar a ser criança, mas acabo desanimando logo em seguida. Passar por tudo de novo não seria nada legal. =/

    continua escrevendo ae que ce manda bem nisso. :)

  2. Carlos M. dos Santos, Sir.
    10:00 pm on January 30th, 2011

    GENTE O ZÉ ESCREVE.
    Mandou bem, manolo.

  3. Ricardo José
    10:05 pm on January 30th, 2011

    Tão bem como uma babuíno esquia, mas escrevo. Vlw Carlão :D

  4. Ricardo José
    10:05 pm on January 30th, 2011

    Passar por tudo é ruim pra qualquer um, mas talvez pior pra ti. Que bom que nem tem como voltar mesmo…

  5. As oportunidades na vida aparecem dessa maneira. Se realmente qusierem e não se deixarem levar pelo comodismo, eles tem um futuro os aguardando.

    É difícil, não impossível.

  6. Texto gostoso de ler. Senti falta da foto dos meninos =( . To super esperando atualizações =)

  7. Ricardo José
    10:13 pm on January 30th, 2011

    Verdade Fran =(
    Nem tive a idéia de fotografa-los.

  8. :D Fiquei encantada com sua escrita! Muito bom o relato de como tudo ocorreu, me senti no local prestando a mesma atencao que teve no “passo a passo” dos garotos :)
    Espero que toda essa curiosidade e agilidade permaneçam de forma positiva na vida adulta dessas crianças :)

    Escreva sempre viu Zé!
    Beijos

  9. Andrea
    3:23 pm on January 31st, 2011

    Estou impressionada com sua habilidade em narrar o que aconteceu! Estava junto e não imaginei quão interessante esse momento pareceria se escrito!
    Vejo que temos um talento por aqui =)
    A foto realmente faltou, aliás, não temos foto juntos =( Mas teremos!
    bjo, An